"Tudo bem", disse ela quando eu fui buscar as chaves do carro, e deixei-a esperando lá na porta de casa. Entrei lá; a única fonte de iluminação do hall de entrada era a janela de vidro, por ela escorria luz como uma cascata. Acendi o interruptor; estranho, esta sala está diferente. Completamente vazia. "Venha logo!", a voz dela gritou lá da rua. Tentei apressar-me, mas não havia nada no hall! Seriam ladrões? Eu saí de casa e a vi esperando por mim lá fora. Ela não estava com uma roupa azul? Ela usava roupa rosa agora; como ela trocou tão rápido? Andei em direção a ela, que me recebeu com uma cara de surpresa. "Você demorou", disse ela. "Eu vim aqui para comprar a sua casa. Quero vê-la."
Comprar minha casa! Há alguns anos atrás, ela disse que bateu em minha casa — que na época estava apenas com uma cama e um banheiro e pronta para ser vendida — e eu estava na praia no dia. Ela bateu palmas, tocou a campainha, mas ninguém atendeu; acabou desistindo e comprando outra casa, pois precisava urgentemente de uma. Um dia, em sua nova casa, ela pediu uma pizza e eu fui o entregador; viramos amigos desde então. A casa nunca foi vendida.
Tudo foi tão rápido que acabei aceitando mostrar a casa para ela, que ficou absolutamente satisfeita com a habitação. Virou-se para mim e disse: "Amanhã eu passo aqui e vou te pagar à vista. Pode ir desocupando a casa." Eu fiz isso e recebi o dinheiro no dia seguinte. Ela veio com um caminhão de mudança e descarregou os móveis com a minha ajuda. Ao anoitecer, a casa estava cheia e alegre.
Peguei o dinheiro e guardei em uma sacola, que levei comigo e guardei com a vida. Dormi em um hotel naquela noite. Antes de dormir, contei o dinheiro: Setenta mil reais, exatamente o que eu pedira pela casa. Acordei cedo no dia seguinte e saí para ver alguns filmes. Em cartaz: De Volta Para o Futuro. Legal, pensei, resolveram relançar no cinema os filmes mais antigos. No bilhete de entrada: Emitido às (não me lembro que horas) de (não me lembro que dia) de 198x (não sei o que pôr no lugar do x).
Eu estava na década de 1980. (Uma informação inútil: nasci em 1955). Fui o primeiro homem da história a voltar no tempo, creio eu. Com exatamente quarenta anos de idade, encontrara uma fenda no tempo. Até hoje não sei como realizei a façanha.
No dia seguinte, o meu eu do passado, o que estava na praia, voltou para a casa. Havia me esquecido disso, e imaginei o que eu faria se encontrasse a minha casa nas mãos de outro. Corri para o lugar onde voltara no tempo. Estava a um quarteirão de lá, quando me lembrei da agressividade que eu possuía, que fora curada por remédios um pouco antes que eu virasse um entregador de pizza. Na época, se eu encontrasse minha casa nas mãos de uma mulher desconhecida, com certeza a mataria.
Quando eu cheguei ao meu destino, ouvi gritos de mulher lá dentro da casa. Corri para um telefone público e liguei para a polícia. "Rápido! Na rua", disse o endereço, "está acontecendo um assassinato! Se eu sei o nome? É A. M. I." Disse o meu próprio nome, pois eu mesmo era o assassino. Aqui ele está abreviado para proteger minha identidade.
Eu entrei na casa e deparei-me comigo mesmo mais jovem correndo, minhas (ou suas?) mãos cheias de sangue. Pulou o portão e nunca mais o (me) vi. Acho que ele (eu) morreu (morri) naquele dia. Foi exatamente quando ele desapareceu que a polícia chegou.
Fui preso por homicídio. As impressões digitais são as mesmas que estavam na arma ao lado do corpo. Fui pego por estar no local errado e na hora errada. 37 anos de prisão. Hoje, com 75 anos de idade, fui liberado da prisão e me resta pouco tempo de vida. Dedico cada segundo vivido a odiar e a maldizer a viagem no tempo que arruinou a minha vida.
Ass.
A. M. I.